A Soberania de Deus e a liberdade humana

A propagação do Evangelho de Jesus, enquanto missão legada à igreja (Mc 16.15), tem como objeto principal a obra redentora de Cristo ante o pecado do homem. Comunicar este ato salvífico implica também explanar sua necessidade, como parte dos propósitos de Deus. Logo, não é raro o surgimento de uma dúvida: o pecado cometido pelo homem é resultante da própria vontade humana ou foi algo premeditado, tendo em vista a onipotência e onisciência de Deus?

A resposta não é simples e não vem pronta ao remetente. Compreender a relação entre os desígnios do Eterno e as decisões humanas exige certo exercício mental, mas antes é preciso entender o agir de Deus, por meio da revelação dEle nas Sagradas Escrituras. Aqui vamos explanar um pouco sobre o plano de Deus e suas implicações na vontade humana.

No Antigo Testamento, os escritores ressaltam sempre a soberania de Deus: nada acontece sem Sua vontade. Toda a trajetória do mundo e da humanidade foi determinada por Deus na eternidade, com garantia eficaz de que a linha do tempo vai ser cumprida conforme a palavra proferida por Deus (Is 46.10,11; 14.24).

Já no Novo Testamento, o conceito de soberania é reforçado, inclusive atos específicos que aconteceram para que se cumprissem os planos de Deus. É o caso da própria vida de Jesus, sua condenação, morte e ressurreição. Os escritores neotestamentários entendiam que cada ato praticado pelos homens nada são que parte do controle de Deus, que nada acontece sem que ele determine. 

O consenso dos autores bíblicos é que o cumprimento da vontade de Deus tem como fim a glória de Seu nome (Rm 828). A vontade do Altíssimo é imutável, eficaz e isso também se reflete na vontade dos homens (Is 44.28; At 2.23). Porém, o modo como as decisões humanas são afetadas pelo agir de Deus é que produz novas dúvidas, uma vez que torna-se intrigante a relação entre a soberania de Deus e a liberdade do homem. 

Tanto no Calvinismo quanto no Arminianismo, a soberania de Deus é um fato incontestável. O primeiro, no entanto, define o plano de Deus como algo logicamente anterior às decisões do homem. Logo, o Criador preordena tudo o que vai acontecer, inclusive os atos humanos – sejam eles bons ou maus (Determinismo Teológico).

Por sua vez, o Arminianismo ressalta que as decisões da humanidade são anteriores à decisão de Deus em preordená-las aos homens. Ainda que considere a soberania divina algo primordial, o amor dEle ganha ênfase, em concordância com a plena liberdade do homem. Logo, Deus faz uso de Sua presciência para verificar quais possíveis decisões serão tomadas pelos homens e assim Ele toma sua decisão quanto ao cumprimento delas.

É importante considerar que a Bíblia ressalta a vontade de Deus como algo acima das vontades humanas. Ele escolhe para si quem Ele quiser (Jo 15.16), tem misericórdia de quem Ele quer (Rm 9.20-24) e o homem só faz aquilo que é determinado por Deus (Is 44.28). Porém, o fato dos homens cometerem atos bons e maus como que exatamente ditados pela vontade divina implica na total ausência de responsabilidade humana, tornando Deus autor também do mal. Logo, tanto Calvinismo como Arminianismo tornam-se intrigantes no que tange ao Plano de Deus. 

Conforme o Dr. Augustus Nicodemus, Deus predestinou tudo o que acontece, porém a soberania e a onisciência de Deus não anulam a responsabilidade do homem por seus atos. Logo, essa relação entre a vontade de Deus e a liberdade humana não possui uma explicação pronta, sendo então encarada como um mistério, aos moldes do que ocorre com a Doutrina da Trindade.

Erickson (2015), por sua vez, destaca que Deus tem presciência de possibilidades, reconhecendo assim os possíveis caminhos a serem tomados pelos homens. Tal posição, chamada de Conhecimento Médio, define que o homem é livre para decidir o que será feito, mediante as possibilidades já decididas por Deus. 

Assim, refuta-se o Determinismo Teológico, defendido pela maioria dos teólogos calvinistas, bem como o modelo arminiano, uma vez que mesmo que todas as coisas já tenham sido escritas por Deus, os homens são plenamente responsáveis por suas condutas, sejam elas boas ou más

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REFERÊNCIA 
  
ERICKSON, Millard  J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015.

LOPES, Augustus Nicodemus. O Calvinismo segundo Entendo. [S. l.]: Tempora Mores, 2010. Disponível em: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2010/06/o-calvinismo-segundo-entendo.html. Acesso em: 08 junho. 2017.        

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