Cartas de sangue: quando a hipocrisia ideológica grita


Na última semana, o Brasil conheceu o caso de Suzy Santos, travesti que por oito anos encontra-se numa penitenciária. O caso foi ao ar através do Fantástico, da Rede Globo, onde o médico Drauzio Varella mostrou a necessidade de pessoas trans em situação de cárcere serem transferidas para presídios próprios ao gênero aos quais se identificam. A matéria, exibida no último dia 1º, gerou comoção com o gesto do médico que abraçou a entrevistada, por ela não receber visitas há oito anos. 

Pois bem. A matéria não disse nada sobre o porquê de Suzy estar presa. Mas a verdade não demorou vir à tona. Suzy, cujo nome de batismo é Rafael Tadeu de Oliveira Santos, cumpre pena por ter estuprado, estrangulado e escondido o cadáver de uma criança de 9 anos, crime praticado em 2010. A pena total de Suzy é de 36 anos e 8 meses de reclusão em regime fechado. A sentença do Tribunal do Juri foi confirmada pela segunda instância da Justiça de SP e transitou em julgado em 2014. 

Para mais detalhes sobre o caso, recomendo a reportagem do portal Conexão Política, que está muito bem embasada. Mas convém dizer que, assim que descobriu-se a história por trás do fato de um trans aparentemente "inofensivo" que não recebe visitas e que fez com que muita gente lhe enviasse cartas (inclusive, pasmem, crianças), imediatamente, o caso gerou revés na internet. Como pôde a maior emissora de TV do país dar destaque à solidão de alguém que estuprou e matou, com requintes de crueldade, uma criança? E o sentimento da família, ao ver tal pessoa ser exaltada, como fica? 

Há algumas variáveis nesse tema. Primeiro, houve, claramente, sensacionalismo por parte da TV, seja para comover o público quanto à causa LGBT, seja para mostrar o caos do sistema penitenciário brasileiro ou, quem sabe, para “jogar na cara da sociedade cristã conservadora direitista” que Drauzio Varella com seu gesto humanitário fez mais pelo país que um presidente fanfarrão da República que rege o país qual a um menino dentro do carro do pai. 

A raiva da sociedade, de ambos os lados antagônicos, está ferrenha. De um lado, gritos contra bandidolatria brasileira encabeçada pela Rede Globo, que exalta marginais de todas as estirpes e que forçam a aceitação por parte do povo. Do outro lado, mais à “esquerda”, críticas à postura destes que estão condenando a reportagem do Fantástico. E segue-se o cortejo: “Bando de fascistas, homofóbicos, reacionários...” e blá-blá-blá, só porque não aceitam que pessoas trans que cometeram crimes tenham uma segunda chance. 

Vejam, a incoerência por parte de ambos os lados é bem simples. A esquerda defende que todos os criminosos tenham uma segunda chance. Desde que este não “se torne crente”. Do contrário, tem que mofar na cadeia. Já o outro lado, quer que o criminoso morra, vá para a cadeira elétrica e o que for necessário. Mas esquecem que toda a vida pertence a Deus, mesmo as de pessoas perversas e sanguinárias como foi o caso da tal Suzy. Você pode achar ridícula a comparação. Mas é apenas uma constatação. 

Suzy deve pagar pelos seus crimes, dentro da pena que lhe foi imposta pelo Judiciário. Merece uma segunda chance? Depende da extensão do que o termo assim permite. Se Suzy merece perdão da sociedade, pergunto: Guilherme de Pádua, assassino da atriz Daniella Perez em dezembro de 1992 (e que hoje está livre da cadeia e ainda é “pastor”), merece uma segunda chance? E Anna Carolina Jatobá, do caso Isabella Nardoni? Ela, pelo que dizem, também se converteu na prisão. A sociedade também deve perdoá-la? 

Meu ponto é que todos estes e muitos outros na mesma condição podem ser perdoados, primeiramente por Deus, se assim se arrependerem, confessarem e abandonarem seus maus caminhos. E também pelas demais pessoas (ver Mateus 6:14,15; Lucas 17.3,4). Mas devem cumprir suas penas. Sem “coitadismo”. Sem representar bandeiras ideológicas disso ou daquilo. Apenas pagar por seus pecados conforme a lei e deixar que Deus guie suas vidas conforme Sua vontade. 

A Bíblia fala muito sobre o perdão, pois a humanidade encontra-se caída em seus pecados e delitos. Porém, Deus providencia o escape àqueles que se arrependem. Apenas a estes. Vejamos: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9). "Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados” (Isaías 43:25). 

Nunca podemos esquecer de que o apóstolo Paulo, um dos ícones do Cristianismo, também foi um assassino, tendo ordenado a prisão e execução de muitos da Fé. Ele converteu-se e se tornou um dos maiores homens da Igreja de Cristo (Atos 9.1-43). Porém, viveu de prisão em prisão, pois a Justiça de Deus prevaleceu sobre ele. Outros nomes mencionados pelas Sagradas Escrituras, mesmo após uma vida inteira de pecados e maldades, também foram justificados por Deus. Mas apenas porque se arrependeram. 

Por isso creio que nessa confusão toda envolvendo Suzy, Varella e a Rede Globo há muita raiva, ira e sede por justiça. E com toda a razão. Mas sejamos sensatos e prudentes. Quem tiver que pagar por seus erros deve pagar, com toda a certeza. Quem merece perdão, também. É preciso racionalizar, sem abrir mão da fé e do senso de justiça. Mas para todos esses casos, deixar a ideologia política um pouco de lado é essencial.

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