Com críticas a Bolsonaro, teólogo questiona ações das igrejas brasileiras durante pandemia

Valdir Steurnagel: "Há tensão por visibilidade, por dinheiro e por audiência" |FOTO: Alex Jajardo

O Brasil está rapidamente se tornando o novo epicentro do COVID-19. Agora, o país está enfrentando cerca de 1000 mortes por dia devido ao vírus - o maior número de mortes diárias no mundo. Até agora, o país registrou mais de 1,6 milhão de casos de COVID e um total de quase 65 mil mortes - perdendo apenas para os Estados Unidos.

Tim Costello, apresentador do podcast Eternity 's Hope in Crisis, conversou com o pastor e teólogo brasileiro Valdir Steuernagel no último episódio, onde foi abordado como as igrejas brasileiras estão lidando com esse período tenebroso da pandemia e quais lições podem ser tiradas a partir disso. 

“No começo, ele foi identificado como um vírus dos ricos”, explica Steuernagel sobre o início da COVID-19 no Brasil. “Então, as primeiras pessoas contaminadas foram aquelas que puderam fazer uma viagem internacional e voltar [ao Brasil]". 

Ele continua. “Com uma segunda e terceira onda chegando, podemos vê-la alcançando os pobres, alcançando as favelas, alcançando a Amazônia. Está chegando às periferias, está chegando às comunidades indígenas, chegando às comunidades fluviais, chegando aos mais pobres dos pobres. E isso é realmente um desastre”. 

Para Steuernagel, a igreja no Brasil está dividida em sua resposta à epidemia COVID-19. Algumas igrejas subestimaram o vírus por causa de sua aliança política com o presidente da República Jair Bolsonaro. Outros começaram a trabalhar, ajudando as comunidades locais a lidar com o impacto do vírus.

“O que você tem no Brasil é uma longa história de presença católica em nosso país. Nas décadas mais recentes, você tem uma Igreja Evangélica em crescimento. Nos últimos anos, a Igreja Evangélica em diferentes ramos se tornou muito visível e é um fenômeno novo em nosso país, em nossa história. De fato, nas últimas eleições, as principais expressões dessa Igreja Evangélica deram forte apoio ao presidente do Brasil”.

Steuernagel observa alguns dos fatores subjacentes a essa aliança política para as igrejas: "Há tensão por visibilidade, por dinheiro e por audiência". Ele diz que as igrejas também sentiram "forte pressão" para abrir os cultos, apesar do risco de espalhar o vírus.

O pastor e teólogo critica a postura do presidente Jair Bolsonaro que, mesmo enquanto o resto do mundo estava empregando medidas para controlar a propagação dessa doença mortal, o chefe do Executivo brasileiro vem minimizando sua gravidade, chegando a chamar o vírus de "gripezinha" e ignorou amplamente as diretrizes emitidas por seu próprio Ministério da Saúde (incluindo medidas de bloqueio).

“Lembro-me de alguns anos atrás, quando o Brasil era uma história de sucesso, e apenas alguns anos depois disso, somos uma história de teste”, lamenta Steuernagel. "Porque, neste momento, você tem junto com a pandemia um novo presidente com liderança em erosão e tem um conflito entre diferentes expressões de poder no Brasil". 

Ele ainda ressalta. “Houve um tipo de conexão estreita entre a igreja de apoio e o atual governo. Então, quando você diz que o presidente não está levando muito a sério o vírus, ele também se espalha em expressões da igreja. Então, eu diria que muitos na igreja não levaram o vírus a sério, e isso teve consequências em nosso contexto no Brasil. Eu digo isso com uma sensação de tristeza”. 

No entanto, Steuernagel é rápido em acrescentar que partes da igreja reagiram de maneira muito diferente. "Eu diria que houve um grande esforço nesse ambiente pandêmico de diferentes igrejas criando comunicação digital e realmente nutrindo seu próprio povo".

Segundo o teólogo, a aliança feita entre as principais igrejas evangélicas do país e Bolsonaro contribuiu negativamente para o avanço da pandemia no Brasil |FOTO: Reprodução/Facebook

Ele observa as “muitas boas histórias” de diferentes iniciativas que as igrejas estão empregando para servir a comunidade. Um desses projetos está na cidade perto de sua casa, que atende mais de cem crianças e suas famílias atingidas pela pobreza.

“Em mais de 70% dessa comunidade, as pessoas perderam o emprego e as crianças estão sem escola. As casas são muito pobres. Nesse ambiente, tentamos estar presentes e ajudá-los a trazer materiais para as igrejas - ajudando-os com comida, ajudando-os a trazer sinais de esperança em seu cenário de desespero”. 

Outro projeto social da Igreja na Amazônia está servindo migrantes da Venezuela. “Ele está tentando servir as comunidades pobres com um modelo de desenvolvimento transformacional, com um modelo de espiritualidade, que ajuda as pessoas a se unirem e a abandonar sua experiência de pobreza”, diz Steuernagel.

Ele acrescenta “Então, Tim, há esperança, porque esperamos que o Evangelho seja essa mensagem de esperança para todos nós”. 

Fonte: Eternity News



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